13.1.07

O meu rio


Este foi o primeiro rio que ouvi na minha vida. Para ele pulei, nele cai, nadei e brinquei. Adormeci a ouvi-lo em tantas noites de Agosto em que a única coisa que vencia o calor da serra era o seu murmurar. Pelas suas margens corri com a despreocupação que qualquer criança carrega no rosto. Fui cowboy, índio e explorador, sem medo de encontrar animal ou qualquer Adamastor. Muitas vezes a única companhia que tinha era o eco da voz do meu avô abafado pela folhagem da copa das árvores. Recordo-me tão bem daqueles sons! A água a afagar os seixos, a voz do avô, o tamborilar dos meus passos na terra seca, a respiração ofegante e o riso preso e abafado de quem não se quer denunciar.
Os anos passaram e o rio continua lá, mas para mim tudo é diferente. Agora, a água sinto-a nos meus olhos quando os fecho e as minhas pálpebras, qual tela de projecção, se enchem com as memórias que mais não voltam. Hoje, o rio continua a correr, tal como a vida. A voz do avô João já não se faz ouvir por lá, e a despreocupação que eu carregava no rosto ficou algures por entre a copa das árvores...
Perto da nascente do rio Ceira em Casal de Ermio – Serra da Lousã

2 comentários:

Carlos Ribeiro disse...

Já te conhecia o dom da palavra, mas deconhecia a veia poética.
Texto simplesmente lindo. Abraço

Joao Gilsanz Magalhães disse...

Muito obrigado pelas tuas palavras Carlos. Este é um bom local para tirar umas boas fotos... por quem sabe, claro.
Abraço para ti